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Relações entre artes cênicas e cultura indígena pautam encontros gratuitos no Sesc Pompeia

 

Quatro encontros abertos ao público e peça de teatro pautam o TePI – Teatro e os Povos Indígenas, Encontros de Resistência. O evento discute a temática com representantes da área e aliados não-indígenas cujas produções artísticas e intelectuais reforçam a importância de se pensar a descolonização do olhar e formas de evitar a invisibilização simbólica dos índios nos dias de hoje

 

Alguns dos nomes confirmados no evento são o Cacique Kotok Kamayura (líder Kamayura, do Parque Indígena do Xingu - MT), Ailton Krenak (um dos maiores líderes políticos e intelectuais indígenas da atualidade), Antonio Salvador (Cia Teatro Balagan - SP), Sônia Guajajara (líder indígena Guajajara, recebeu o Prêmio Ordem do Mérito Cultural, 2015/MINC – BSB e é candidata à vice-presidência da República), Betty Mindlin, (antropóloga e escritora brasileira), Jaider Esbell (foto) artista, escritor e produtor cultural indígena da etnia Makuxi e Lia Rodrigues (diretora da Cia Lia Rodrigues de Dança - RJ).
 

Aliada há 18 anos da causa indígena, a artista, ativista e curadora Andreia Duarte idealizou o projeto TePI – Teatro e os Povos Indígenas, Encontros de Resistência, uma série de encontros que irá acontecer entre 9 e 12 de outubro (terça a sexta-feira), às 18 horas, no espaço de Convivência do Sesc Pompeia. Os eventos terão participação de artistas, acadêmicos e lideranças indígenas que irão discutir pautas como a resistência indígena na contemporaneidade, a produção artística presente na rotina desses povos, os teatros feitos por artistas não-indígenas que promovem a temática, formas de descolonizar o olhar de não-indígenas para essa população e a arte como lugar de resistência às violências simbólicas e físicas a que índios são submetidos.

O TePI também prevê duas apresentações da peça Gavião de Duas Cabeças, com atuação de Andreia Duarte, nos dias 9 e 16 de outubro, terças-feiras, às 21h30 – a peça foi criada a partir da experiência pessoal da artista, que morou durante cinco anos na aldeia Kamayura, no Parque do Xingu. “Como atriz, educadora, ativista, acadêmica e escritora, eu sempre estive envolvida com a causa indígena e trago os reflexos disso no meu trabalho em vários atravessamentos”, conta Andreia. Para a artista, seu envolvimento como não-indígena está pautado nas relações com a alteridade, o respeito à vivência do outro e a uma forma poética e política de discutir questões sociais. “Meu percurso nessa área é longo e faço uma escolha ética. O diálogo sempre é possível dependendo de como se faz”, complementa.

Nos encontros agendados no Sesc Pompeia, a artista localiza dois pontos tidos como os mais importantes para conduzir as discussões. O primeiro procura compartilhar com o público algumas qualidades essenciais que estão presentes na vivência indígena, como a aversão à exploração, a cultura do consumo, outras formas de se entender no mundo e a utilização de recursos naturais.

O segundo ponto pretende discutir a forma com que as experiências artísticas indígenas, praticadas por esses povos, tais quais as danças, os cantos xamânicos, os desenhos e as pinturas, e não indígenas, tais como o teatro, podem ser vistas como formas de resistência no mundo contemporâneo. "O encontro traz uma discussão sobre o corpo e a experiência. A conexão entre os povos indígenas e o teatro pode expandir o pensamento sobre o que é arte, por exemplo", diz Andreia.

A artista fez questão de que cada encontro contasse com participação de indígenas e não-indígenas, fomentando assim uma discussão que passasse pelos aliados da causa e pelas pessoas que a representam diretamente.

No primeiro encontro, chamado O corpo não colonizado indígena, o foco será a discussão sobre o que é ser indígena, a construção do corpo e do aprendizado, tentando perceber formas não colonizadas de se entender no mundo.

O encontro Seria um teatro um lugar de representatividade dos povos indígenas? discute como os povos indígenas se veem representados por não indígenas e o que significa a representatividade para eles.

O encontro Por uma proposta de vida anti-desenvolvimentista levanta a discussão sobre as ideias de mercado que massacram a cultura desses povos e os expõem e genocídios e etnocídios, muitas vezes amparados pelas próprias decisões do Estado. A partir desse panorama, se discutirá também como os índios resistem até hoje mantendo os hábitos e preservando os recursos que fazem parte de suas culturas.

O último encontro, Atos ancestrais e artísticos como formas de resistência, discute como os povos indígenas percebem a arte e se suas manifestações culturais artísticas, tal como o teatro não-indígena, podem cumprir um papel de resistência poética e política no mundo contemporâneo.

Andreia acredita que a urgência de se falar sobre a arte como forma de resistência justifica a importância do TePI. “A ideia é propor um olhar mais descolonizado dentro desse recorte”. Para ela, o desconhecimento e a falta de empatia reforçam problemas graves - tantos os simbólicos, representados pelos preconceitos e estereótipos, quanto os objetivos, que desrespeitam e invadem direitos dos povos indígenas.

“Há uma falta de equilíbrio entre o cuidado com a natureza e as ações que pretendem aumentar o lucro de grandes corporações”, diz Andreia. Como exemplo, ela cita suas recorrentes visitas ao Parque Indígena do Xingu, cujo entorno está tomado pelo desmatamento que cresce a cada ano. “E as lideranças indígenas seguem resistindo radicalmente em frente a essa realidade devastadora, que tentam apagar desde a fundação do país. Não podemos esquecer que não é só português que falamos no Brasil. Há mais de 305 etnias indígenas e 274 idiomas”, completa.

 

Gavião de Duas Cabeças

A programação do TePI conta também com duas sessões do espetáculo Gavião de Duas Cabeças, espetáculo idealizado por Andreia Duarte a partir da experiência que teve de morar durante cinco anos na aldeia Kamayura, no Parque do Xingu. “Como aliada da causa, minha proposta era radicalizar a minha experiência como uma forma de encontro e até desencontro com aquele que chamamos de ‘outro’”, diz a artista.

O espetáculo tem direção e preparação corporal de Juliana Pautilla, que também divide com Andreia dramaturgia e cenografia da obra. Na mitologia indígena Kamayura, o gavião de duas cabeças é aquele que devora o espírito que sobrevive à morte do corpo. A partir dessa ideia, Andreia Duarte usa seu próprio corpo como um documento oral-visual de resistência poética. No enredo, há uma representante do agronegócio, uma mulher indígena e a própria atriz, que questiona sua experiência. O público é chamado a ver e a ouvir o genocídio, “legalizado pelo documento e pelo discurso”, e a perceber a alteridade.


Participantes dos Encontros

Idealizadora: Andreia Duarte é atriz, ativista, curadora, educadora e pesquisadora sobre o teatro e os povos indígenas em uma perspectiva descolonizadora. Doutoranda pela USP/ECA, morou cinco anos no Parque Indígena do Xingu e aprofundou essa experiência nos processos de formação, criação e pesquisa no campo da atuação teatral. Idealizadora e atriz do solo “Gavião de duas cabeças”, direção de Juliana Pautilla, com o qual vem apresentando em movimentos sociais, em temporadas, Festivais no Brasil e na Europa. É coordenadora dos Eixos Reflexivo e Pedagógico da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo.

 

1) O corpo não-colonizado indígena

Ailton Krenak é um dos maiores líderes políticos e intelectuais surgidos durante o grande despertar dos povos indígenas no Brasil, ocorrido a partir do final dos anos 1970. A sua atuação tem sido fundamental para a luta pelos direitos indígenas e a criação de iniciativas como a União das Nações Indígenas e a Aliança dos Povos da Floresta. Ailton é um pensador acurado e original das relações entre as culturas ameríndias e a sociedade brasileira, criando reflexões provocativas e de largo alcance. Co-curador dos Encontros de Resistência Teatro e os Povos Indígenas, que atualizam a potência das linguagens do teatro de aproximar "o sentir-ser indígena e as possíveis expressões do sentido de SER" em suas palavras.

Cristine Takuá é professora indígena. Formada em Filosofia pela UNESP - Marília, ministra aulas de Filosofia, Sociologia, História e Geografia na EE Indígena Txeru Ba’e Kua-I, DER Santos, pertencente à Terra Indígena Ribeirão Silveira, que se localiza na divisa dos municípios de Bertioga e São Sebastião.

Betty Mindlin é antropóloga, trabalha desde 1978 em projetos de apoio a povos indígenas.  É autora de Diários da Floresta, (Terceiro Nome, 2006) e   coautora, com narradores indígenas, de sete livros de mitos, como Moqueca de Maridos, Paz e Terra, 2014 (terceira edição), traduzido para várias línguas, e de um livro infantil, Olívia e os índios, Scipione, 2014. Em 2017 lançou Crônicas despidas e vestidas pela Editora Contexto.

Cacique Kotok Kamayura é líder da aldeia Kamayura localizada na região de confluência dos rios Kuluene e Kuliseu, próxima à grande lagoa de Ipavu, e atua como mediador e regulador dos conflitos, mantendo a harmonia interna do grupo e expressando generosidade. O poder, de natureza marcadamente pacífica, ele exerce à medida que o grupo aceita e que obtém o apoio necessário dos líderes de grupos familiares. Sua habilidade política se expressa pela palavra, que é, ao mesmo tempo, símbolo de seu status.

 

2) Seria o teatro um lugar de representatividade dos povos indígenas?

Joilson Paulino Karapãna é liderança do Povo Karapãna e também representante do reconhecimento do Parque das Tribos como militante da causa indígenas na região do do Taruma Açu em Manaus. Foi uns dos pioneiros juntos com outros 11 professores indígenas a exercer a função de professor indígena bilíngue dentro do município de Manaus. Também fez parte do Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia pela-PNCSA/ UEA.

Antonio Salvador é ator e integra a Cia Teatro Balagan desde 2003, atuando nos espetáculos Programa Pentesiléia, Recusa, Prometheus, Západ e Tauromaquia, dirigidos por Maria Thaís. Pela atuação em Recusa, recebeu o Prêmio APCA, junto com Eduardo Okamoto. Atualmente está em cartaz com Um panorama visto da ponte, de Arthur Miller, direção de Zé Henrique de Paula. É professor da Escola Livre de Teatro de Santo André.

Daiara Tukano é indígena do povo Tukano, formada em artes pela Universidade de Brasília, mestranda em direitos humanos, educadora, artista e militante indígena e feminista, é professora e correspondente da Rádio Yandê, primeira web rádio indígena do Brasil.

Carla Ávila é coreógrafa, diretora, intérprete, pesquisadora e professora. Doutoranda em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo. Bailarina e coreógrafa, atualmente é artista-docente na Universidade Federal da Grande Dourados, MS (UFGD) na Faculdade de Comunicação, Artes e Letras e na Faculdade Intercultural Indígena. Ministra disciplinas nas áreas de Artes, com ênfase em Dança e Teatro, Técnicas e Poéticas do Corpo e Arte-educação na perspectiva do corpo e ancestralidade, memória e oralidade.

 

Transmissão do documentário Martírio + Conversa: Por uma proposta de vida anti-desenvolvimentista

Ernesto de Carvalho é fotógrafo, documentarista e antropólogo. Desde 2007 desenvolve trabalhos junto ao projeto Vídeo nas Aldeias, coordenando oficinas de vídeo em aldeias indígenas em diversas partes do Brasil, além de fotografar, dirigir e editar filmes. Sua pesquisa atual é centrada no processo de trabalho com vídeo em uma comunidade Guarani Mbya do Rio Grande do Sul, pensando na maneira como as novas práticas de auto-representação têm transformado as relações dessa comunidade com o estado, com seu passado, e em concepções locais de transformação e devir.

Carmen Junqueira é professora titular do Departamento de Antropologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo desde 1979 e recebeu o título de professora emérita desta universidade em 2002. Dedica-se à defesa dos povos indígenas e a numerosos projetos de pesquisa e cooperação com povos da Amazônia e de São Paulo, com destaque para os Kamaiurá do Alto Xingu e os Cinta Larga de Mato Grosso. É uma formuladora de princípios indispensáveis à afirmação dos direitos indígenas e analista da situação dos povos brasileiros no sistema político-econômico atual e das mudanças ocorridas nas últimas décadas.

David Popygua é professor guarani na escola localizada na aldeia Tekoá Pyaú que abriga o “Centro de Educação e Cultura Indígena” e mantém o ensino bilíngue. Atua na Comissão Yvyupa. Atual liderança indígena do Jaraguá.

Sonia Guajajara é formada em Letras e em Enfermagem, especialista em Educação especial pela Universidade Estadual do Maranhão Recebeu em 2015 a Ordem do Mérito Cultural. À frente da coordenadoria executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), ela é uma das maiores lideranças ambientais do país, unificando mais de 305 povos em torno de pautas que combatem os interesses dos setores mais poderosos da sociedade brasileira.

 

Atos ancestrais e artísticos como formas de resistência

Luiz Davi é Performer e Diretor de Teatro. Professor Assistente da Universidade do Estado do Amazonas-UEA, Doutorando em Antropologia Social pela Universidade Federal do Amazonas-UFAM, com a pesquisa intitulada: A Performatividade no Xamanismo Yanomami: um olhar sensível para a Corporeidade, a Musicalidade e o Espaço no Ritual. Atualmente é Líder do Diretório de Pesquisa Tabihuni: Núcleo de Investigações em Teatralidades Contemporâneas e suas Interfaces Pedagógicas-UEA/CNPQ. Coordena o Projeto de Extensão: Antropologia da Performance: o Corpo na Arte Contemporânea e suas Interfaces Artísticas e Interculturais.

Lia Rodrigues é bailarina e coreógrafa e dirige a Lia Rodrigues Companhia de Danças desde 1990. Criadora e diretora artística por 14 anos do festival Panorama da Dança. Participa da idealização e curadoria das exposições CAIXA DE FOLIA (1998) e CORAÇÃO DOS OUTROS-MARIO DE ANDRADE (SESC, São Paulo, 1999). Desde 2004 desenvolve ações artísticas e pedagógicas na favela da Maré, no Rio de Janeiro em parceria com a Redes da Maré. Dessa parceria foram criadoso   Centro de Artes da Maré em 2009 e a Escola Livre de Dança da Maré em 2011.

Jaider Esbell é artista, escritor e produtor cultural indígena da etnia Makuxi. Nasceu em Normandia, estado de Roraima, e viveu, até aos 18 anos, onde hoje é a Terra Indígena Raposa – Serra do Sol (TI Raposa – Serra do Sol). Autor do livro, Terreiro de Makunaima – Mitos, lendas e estórias em vivências. O artista colabora com obras e testemunhos de vivencias coletivas com a arte indígena contemporânea realizadas em Roraima, fruto de articulação entre artistas, artesãos, lideranças, comunidades e a sociedade em geral em torno do tema. Em 2016, foi indicado ao Prêmio PIPA, o maior prêmio da arte contemporânea Brasileira.

Mapulu Kamayura é pajé e líder femina da aldeia Kamayura localizada na região de confluência dos rios Kuluene e Kuliseu, próxima à grande lagoa de Ipavu. É considerada uma das principais pajés do alto Xingu, espacialmente por ter sido formada pelos ensinamentos do grande xamã Tacumã Kamayura. 

Mediadora: Rita Carelli é atriz e diretora de teatro e cinema, escritora e ilustradora. Estudou Letras na Universidade Federal de Pernambuco e Teatro na Escola Internacional de Teatro Jacques Lecoq. Trabalhou como palhaça na ONG Doutores da Alegria e em diversas peças e filmes tendo sido premiada em alguns dos principais festivais de cinema do Brasil. É protagonista da minissérie “Diários da Floresta” inspirada no livro de Betty Mindlin, com direção de José Arnaldo Campos. Coordenou a coleção “Um Dia na Aldeia”, de filmes e livros para crianças, feita em parceria com a ONG Vídeo na Aldeias. Seu último livro, “minha Família Enauenê” conta vivências de sua infância entre os índios Enawenê-Nawê, no Mato Grosso.

Ficha Técnica

Direção: Andreia Duarte. Curadoria: Ailton Krenak e Andreia Duarte. Produção: Rachel Brumana e Olívia Barcellos. Fotografia: Carola Monteiro.  Registro em Vídeo: Bruta Flor Filmes. Comunicação: Canal Aberto. Administração Financeira: Patrícia Perez. Realização: Olhares Instituto Cultural.

 

Serviço

TePI – Teatro e os Povos Indígenas, Encontros de Resistência

Sesc Pompeia (R. Clélia, 93 - Água Branca, São Paulo)
 

Peça de teatro Gavião de Duas Cabeças

9 e 16 de outubro, terças-feiras, às 21h30

Local: Espaço Cênico

 

Encontros – 9 a 12 de outubro, de terça à sexta-feira, 18h

Local: espaço de Convivência
 

1) O corpo não-colonizado indígena

9 de outubro, terça-feira, 18h

Com Ailton Krenak, Cristine Takuá, Betty Mindlin e Cacique Kotok Kamayura

2) Seria o teatro um lugar de representatividade dos povos indígenas?

10 de outubro, quarta-feira, 18h

Com Joilson Paulino Karapãna, Antonio Salvador, Daiara Tukano e Carla Ávila

3) Transmissão do documentário Martírio

Encontro: Por uma proposta de vida anti-desenvolvimentista

11 de outubro, quinta-feira, 18h

Com Ernesto de Carvalho, Carmen Junqueira, David Popygua e Sonia Guajajara.

4) Atos ancestrais e artísticos como formas de resistência

12 de outubro, sexta-feira, 18h

Com Luiz Davi, Lia Rodrigues, Jaider Esbell e Mapulu Kamayura. Mediação de Rita Carelli 


Para entrevistas, fotos e outras informações:
Canal Aberto Assessoria de Imprensa

Márcia Marques | Daniele Valério
Fones: 11 2914 0770 Celular: 11 9 9126 0425 (Márcia) | (11) 9 8435 6614 (Daniele)

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